quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Palmada: contra ou à favor?

O escritor Machado de Assis, que freqüentou apenas o primário, tratou do tema no Conto de Escola, em que a palmatória se faz onipresente: “E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca”.

O debate "bater versus não bater" apresenta alguns complicadores. Os termos palmada, punição corporal, surra, espancamento, parecem não ser diferenciados. A punição corporal é definida como "punição aplicada em qualquer parte do corpo e de qualquer tipo", a famosa palmada (spanking) define-se como "um tapa, aplicado com a mão aberta, nas nádegas ou em extremidades do corpo, visando a modificação do comportamento" (Baumrind). Em segundo lugar, este debate volta-se para a ética e os direitos da criança. Em terceiro lugar, a questão dos efeitos da palmada, da punição corporal, é controversa entre leigos e especialistas.

Culturalmente, a palmada foi utilizada no ambiente escolar como instrumento disciplinador. O uso da palmatória era frequente, nos dias de hoje não mais. A Psicologia aconselha que se a criança não gosta de fazer as tarefas escolares, por exemplo, os pais poderão determinar que ela só poderá brincar ou assistir à televisão depois de acabar de estudar. Assim, pais e mães evitam que a criança não cumpra com suas obrigações e não precisam castigá-la com a prática educativa parental da palmada. Também a escola aplica o castigo de não haver intervalo, caso não cumpra as tarefas em sala de aula ou tenha comportamento inadequado. A escola e a família ainda não caminham juntas no sentido de disciplina e imposição de limites. Os pais atuais precisam ter acesso ao conhecimento de outras práticas educativas que sejam eficazes para criar e manter um repertório de comportamentos adequados, ajudar o desenvolvimento de habilidades sociais em seus filhos e manter uma dinâmica familiar com muita responsividade, afeto e comprometimento. A escola deve caminhar em parceria com a família, ter especialistas em seus quadros funcionais, necessariamente.

É preciso dizer NÃO aos nossos filhos, incutir responsabilidades, estabelecer normas, corrigir, reforçar positivamente a boa conduta, incentivar, adequar, colaborar, propiciar autonomia e auto-estima, ensinar e AMAR acima de tudo. Mas, COM OU SEM PALMADAS? O projeto de Lei da PALMADA vem à tona trazendo inúmeras discussões: uma palmada deverá ser considerada crime? Então deverá ser criada a Lei contra filhos que batem em seus pais, por exemplo, isto tem acontecido, também em Alagoas. Com a lei aprovada, a garantia de privacidade familiar, a autoridade dos pais será mantida? Talvez devêssemos realizar um referendo onde todos pudessem expor sua opinião, à exemplo de alguns países.

A palmada possui efeito imediato, suprime o comportamento. Para alguns pais, é eficaz, reforçando este comportamento de bater. Os filhos, geralmente, sentem dor física e também apresentam respostas emocionais, tais como raiva, culpa, vergonha, medo e ansiedade, que podem demorar a cicatrizar. Alguns apresentam comportamentos de contra-ataque, apatia ou ainda comportamentos de fuga e esquiva para livrar-se da punição corporal e, neste caso, as crianças (quando o parente está por perto) não apresentam o comportamento de que foram punidas, não por terem aprendido o correto, mas para escaparem das palmadas. Outras ainda verbalizam “nem doeu”, ainda que doa. Cada ser humano é um estranho ímpar e de atitudes e reações particulares. A grande pergunta é: resolve dar palmada?

De todo modo, a tolerância é salutar em todas as esferas dos relacionamentos humanos. Aprendamos a conversar com nossos filhos!

Fonte: http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=209701
Suzy Maurício é psicóloga clínica, especialista em Psicologia Hospitalar e Domiciliar, palestrante do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente –CEDCA. www.suzymauricio.com 


Reflita !!!

2 comentários:

  1. Raquel! Adorei o poste, super claro, realmente muito esclarecedor! Tenho uma filha de 4 anos e nunca dei uma palmada. Sou totalmente contra a palmada!! Beijos!!

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