quarta-feira, 13 de abril de 2011

Martha Medeiros - Adoro Domingos

Se você fizer uma enquete sobre o dia mais odiado da semana, vai ouvir a mesma resposta de todos os entrevistados: segunda-feira. Tsk, tsk, que falta de espírito de aventura. Nada como uma segunda-feira novinha em folha pra você dar continuidade a tudo o que ficou pendente na semana passada. Se você acha que só uma neurótica comemoraria a volta ao trabalho e ao trânsito, está esquecendo o que a segunda-feira tem de melhor: acabou o domingo.

Domingo só é bom quando você está fora da cidade e, melhor ainda, do país. Estando em casa, o cenário é de guerra: as camas permanecerão como amanheceram, o jornal passará o dia inteiro esquartejado no chão da sala e a cozinha será interditada pela Vigilância Sanitária. E ao ligar a televisão num canal aberto, aí mesmo é que a pulsão para o suicídio será latente. Domingo é um tédio. Mas há como salvá-lo.

Domingo passado me ofertei uma overdose de Domingos. Assisti no DVD aos filmes Separações e Feminices, li alguns textos seus para teatro reunidos em livro, me deliciei com os perfis que ele escreveu de Claudia Abreu e Debora Bloch na revista Lola, e ainda sobrou tempo para curtir seu blog. Recomendo Domingos Oliveira contra o marasmo dos dias, de qualquer dia.

Como muitos sabem da minha fissura por Woody Allen, podem estar fazendo a conexão, já que dizem que um é a versão do outro, mas acho que cada um é brilhante a seu modo. Se há uma conexão, é a da inteligência, da irreverência e do prazer. Eles falam da dor existencial como se ela fosse um presente dos deuses, como se ela devesse ser consumida com uma pequena dose de sarcasmo e um bom vinho. Sempre é outono no universo desses cineastas, mesmo que esteja nevando lá fora ou que um mormaço africano esteja derretendo catedrais. Em suas obras, a vida é celebrada a cada palavra, a cada vírgula, e sem ponto final. Não há pedantismo, não há manipulação dos sentimentos, tudo é poesia, mistério e graça. Há quanto tempo você não se depara com poesia, mistério e graça?

Adoro também o jeito que eles dirigem seus filmes. Fica-se com a sensação de que tudo é um grande e ininterrupto ensaio, que o roteiro não precisa ser seguido com rigidez e que o improviso dá o tom do espetáculo: não é assim a vida fora do palco e das telas?

E há, por fim, o amor. A paixão. As desilusões. A ópera burlesca dos desejos. A busca incessante por estar com o outro, ser amado pelo outro, ganhar algum significado através do outro. É um balé de encontros e desencontros tragicômico que fica continuamente em cartaz nos dias úteis – já que o fim de semana é para amantes sem imaginação.

Domingo, não. Domingos, sempre.

Retirado do Jornal O globo



Achei muito legal ! pensem sobre isso !!
bjss

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