domingo, 5 de junho de 2011

Entrevista

Entrevista: Antônio Egídio Nardi, professor de psiquiatria da UFRJ        

Este texto é um "pouco antigo" mas achei bacana!!! Para quem é da área é bem interessante esta pesquisa !!!


Saúde & Lazer
04-Fev-2009
Pesquisador conduziu estudo que avaliou efeitos em longo prazo do clonazepam e da paroxetina, em pacientes com transtorno de pânico. Resultados foram apresentados durante o 17º Congresso Europeu de Psiquiatria, realizado semana passada em Lisboa (Portugal). Dublin (Irlanda) – O clonazepam e a paroxetina são dois medicamentos freqüentemente utilizados no tratamento do transtorno de pânico, associado a episódios de medo e ansiedade intensos, acompanhado, em alguns casos, por agorafobia (medo de estar sozinho em locais públicos).

Embora muitos pacientes utilizem as drogas por toda a vida, de acordo com Antonio Egido Nardi, Professor Associado do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, nenhum estudo até o momento havia estudado os efeitos destas drogas por um período longo de tempo. Em entrevista à Agência Notisa, Nardi, um dos autores de estudo brasileiro, apresentado durante o 17º Congresso Europeu de Psiquiatria, realizado semana passada em Lisboa (Portugal), conta qual foi o ponto de partida dos pesquisadores, os principais resultados identificados e qual será o próximo passo do grupo científico. Segundo ele, a pesquisa analisou 120 pacientes com transtorno de pânico e acompanhou o grupo por três anos, avaliando a eficácia e os efeitos colaterais dos medicamentos utilizados separadamente ou em associação.
Agência Notisa - Qual foi o ponto de partida do estudo e no que ele se diferencia de outros?
Antônio Egídio Nardi - Esse é um estudo baseado na prática clínica, pois tanto o clonazepam quanto a paroxetina são medicamentos com mecanismo de ação diferente muito utilizados no tratamento de transtorno de pânico. O que há de original no nosso estudo é o segmento em longo prazo, por 3 anos, de pacientes com transtorno de pânico tratados apenas com clonazepam ou apenas com paroxetina. Nós fizemos, primeiro, um tratamento para fase aguda com duração de oito semanas com o objetivo de verificar quais pacientes apresentaram melhora ou não. Aqueles que melhoraram foram convidados a participar de um estudo que os acompanharia por três anos.
Notisa - Por que acompanhar somente os que apresentaram melhora?
Nardi - Porque aqueles que não melhoraram tinham duas opções: ou mudar de medicamento, ou passar para um terceiro grupo, ao qual seria prescrito uma associação do clonazepam à paroxetina – o que acabou sendo, de fato, feito. Este não era um dos nossos objetivos iniciais do estudo, mas é algo muito comum na prática. Uma outra questão desse estudo é que nós tentamos unir uma metodologia científica, de avaliação com escalas e quantificação de resultados, a uma avaliação naturalística, uma avaliação do acompanhamento natural de um tratamento médico, no qual é freqüente a associação de medicamentos. Daí nós decidimos formar esse terceiro grupo.
Notisa - Quantos pacientes entraram no estudo e quantos melhoraram neste período de oito semanas?
Nardi - Iniciaram o estudo 120 pacientes nos dois grupos, e 80% melhoraram e seguiram o estudo até o final.
Notisa - Como foi a condução do estudo após as oito semanas iniciais?
Nardi - Uma questão que nós queríamos também responder é se os dois medicamentos, em dois grupos separados, sozinhos, manteriam a eficácia após três anos. E nós verificamos exatamente isso: tanto a paroxetina quanto o clonazepam, que são remédios inteiramente diferentes, mantiveram os resultados terapêuticos ao final de três anos.
Notisa - Todos os participantes apresentavam o mesmo quadro?
Nardi - Sim. Todos tinham transtorno de pânico com agorafobia, alguns mais graves, outros menos graves. Como a seleção dos pacientes para ambos os grupos foi randomizado, entraram pacientes de diferentes gravidades, e não houve diferenças demográficas – sexo, idade e estudo, por exemplo – entre os grupos.
Notisa - Mas ambos os medicamentos já eram utilizados na prática clínica...
Nardi – Eram e são utilizados, mas faltam estudos científicos seguindo estes pacientes por mais tempo já que muitos deles tomam estes medicamentos por toda a vida. Em geral, as pesquisas são de poucas semanas, no máximo, um ano ou um ano e meio.
Notisa - Embora ambos os medicamentos tenham apresentado resultados similares, há alguma diferença a ser destacada?
Nardi - Uma diferença que nós observamos é que o grupo do clonazepam apresentou menos efeitos colaterais do que o da paroxetina. Esse é um dado que pode sugerir uma vantagem para o clonazepam. Por outro lado, a paroxetina tem um efeito antidepressivo, ao contrário daquele. Isso é importante pois alguns pacientes podem vir a desenvolver depressão e a utilização da paroxetina pode ser favorável. Enfim, não há medicamento perfeito. Nós tentamos mostrar as qualidades e as limitações de ambos.
Notisa - No caso do médico lidando com estes pacientes, qual deve ser o critério na hora de se decidir entre um desses dois medicamentos?
Nardi – Em pacientes com transtorno de pânico em fase aguda, o clonazepam parece ser uma indicação melhor porque a resposta foi mais rápida, os pacientes melhoraram mais rapidamente. Porém, há que se avaliar questões como efeitos colaterais, depressão, comorbidades. Daí, deve-se decidir: pode-se manter essa medicação em longo prazo; a associação com a paroxetina, que é uma opção favorável que parece diminuir o número de efeitos colaterais, pois pode-se utilizar uma dose menor dos dois medicamentos; ou até uma troca pela paroxetina, como por exemplo em pacientes com muitos episódios de depressão – incluindo aí uma utilização ocasional do clonazepam, que pode ser utilizado pontualmente (ao contrário da paroxetina).
Notisa - Pode-se alternar os medicamentos?
Nardi - O ideal não é substituir, mas associar a paroxetina. Caso a clínica demonstre que é possível utilizar somnete a paroxetina, aí pode ser feita uma retirada do clonazepam.
Notisa - Qual é o próximo passo do estudo?
Nardi - O que nós estamos analisando agora é a retirada dos dois medicamentos. Ambos os grupos terminaram os três anos, e nós retiramos gradativamente os remédios ao longo de dois meses e registramos os efeitos, como os relacionados à ansiedade ou ao pânico, que poderiam voltar. O próximo passo é analisar esses dados.
Notisa - Há previsão de quando o estudo será divulgado?
Nardi - Eu espero que durante este ano (2009) nós tenhamos estes dados para apresentar em 2010.
Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)
    


até !

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